Esse texto foi motivado a partir de uma situação real que vivi na escola do meu filho. Penso eu, que sua reflexão, é de fundamental importância, não só para pais e mães mas para todos que estão empenhados com uma sociedade mais justa e com a formação de nossos jovens.
Essa é uma adaptação do original enviado à coordenação da escola:
Caríssimas Professoras,
Mantendo a atitude de constantemente estar próximo da educação e formação do meu filho e exercendo eu próprio a tarefa de formador e educador, venho por meio desse texto tecer algumas considerações que no momento se fazem pertinentes.
Fico bastante satisfeito com a evolução do C., fato esse que atesta um bom trabalho da escola.
Há tempo gostaria de fazer essas reflexões, mas como outras questões urgem em nosso cotidiano, só agora tive como sistematizar minhas idéias.
Percebi com “muita” preocupação, uma estratégia da escola em trocar o DEVER de casa por PRAZER de casa.
Não tenho dúvida nenhuma que o objetivo era minimizar, para as crianças, a carga de trabalho que vem junto ao termo “dever de casa” e que isso foi feito com as melhores intenções pela equipe da escola. Se fosse diferente e percebesse que esse local de promoção da educação não estivesse somando virtudes e boas condutas para meu filho, é certo que não permitiria a sua permanência nessa local.
Mas, mesmo diante da boa intenção, me preocupa como essa mensagem será recebida pelos educandos bem como para seus responsáveis.
Vivemos hoje, em um mundo, onde os valores vem há muito tempo se degenerando, prevalecendo assim a futilidade, o banal, a promiscuidade e o imoral.
Atualmente o que se observa na nossa cultura é uma perda do senso crítico. Estamos diante de uma crise dos valores onde perdemos a noção de limite entre o bom e o mal. São esses conceitos aprendidos que regem o nosso comportamento a nível social. Até onde se busca a satisfação imediata do desejo, pela primazia do princípio do PRAZER absoluto, ou se busca ver o que realidade objetiva oferece pela primazia do princípio da realidade. (LEVINSKI)
Pouco se fala nesse mundo sobre valores e virtudes, e a audiência prefere assuntos que não exijam qualquer movimentação (ação de se movimentar) ou sacrifícios, ficando assim uma sociedade acomodada, letárgica.
A barbárie com que convivemos é sintoma de uma sociedade decadente e doente. A ética, os valores e a dignidade humana deixaram de existir em nossa sociedade, a paranóia, o pânico social, a depressão e a frustração são doenças, hoje em dia, corriqueiras que acometem a maioria da população. Nestes termos, há muito mais motivação em ir ao shopping saboreamos com os últimos lançamentos, a que refletir e nos mobilizarmos de maneira pragmática diante da violência e do que nos aflige. (RODRIGO F.C.)
A própria palavra sacrifício perdeu o seu sentido real e literário (sagrado-ofício) e apresenta-se hoje como algo danoso e que deve ser evitado.
Mas é importante lembrarmos que esse mesmo mundo que faz com que as pessoas “amoleçam” e engordem em seus sofás, ele também cobra, seleciona, exclui e é muito exigente. Existem obrigações, DEVERES, e se não cumpridas somos responsabilizados na forma da lei e é importantíssimo que isso seja apresentado para nossas crianças o quanto antes, pois, estão em uma fase de aprendizado e desenvolvimento. Li há pouco, uma frase que acho que faz muito sentido e vai um pouco na contramão do que é dito corriqueiramente: “Não precisamos de um mundo melhor para nossas crianças, precisamos de crianças melhores para nosso mundo”.
A legislação específica para esse público, Estatuto da Criança e do Adolescente, apresenta, além dos Direitos, os Deveres das crianças e adolescentes.
O Brasil é hoje um país de jovens e segundo Levinsky, esses jovens encontram muitas dificuldades de adaptação à vida moderna. (Adolescencia e violência- Consequencias da Realidade Brasileira).
Devido a primazia do PRAZER imediato para eles não há preocupação de contribuir para a evolução da sociedade. Não conseguem passar do estágio egocentrico, narcísico, em que o importante é existir, sobreviver a qualquer preço. (LEVINSKI)
Para o mundo atual, (individualista, sectário, egoísta) o PRAZER tem primazia sobre o DEVER. “Oxála que nossas crianças não reproduzam essa atitude”.
Estamos vivêndo em um mundo que é preferível Ter do que Ser.
“PRAZER sobre DEVER”!!. Esse axioma é perigosíssimo e se apresenta disfarçado como algo bom. O maior feito do “Diabo” foi fazer com que as pessoas não acreditassem nele. Uso essa frase metaforicamente e sem nenhuma conotação religiosa.
O DEVER, sempre deve vir antes do PRAZER. Particularmente, não gosto de palavras absolutas como Tudo, Nada, Sempre e Nunca, mas nesse caso a palavra SEMPRE tem que ser empregada. Não tenho objetivo de fazer propaganda negativa do Prazer, mas esse tem o seu lugar e SEMPRE depois dos nossos deveres.
No século XVIII, um filósofo alemão e que se faz atualíssimo, Emanuel Kant, falava que os instintos não devem governar os homens, pois estes os levam somente a satisfação de suas necessidades. Os instintos estão para os animais como a razão esta para os seres humanos.
Kant diz ainda que a única coisa, inteiramente boa, é a boa vontade e que a característica dessa é a ação pelo DEVER e não por inclinações.
Postula sobre o imperativo categórico, um imperativo da moral, que ordena que só devemos agir conforme uma máxima que se torne universal, ou seja, que possa valer para todos os homens, independente de suas aspirações pessoais. Isso por si só, já é uma aproximação ao altruísmo em detrimento do egoísmo.
O filosofo diz ainda que devemos agir pelo DEVER (imperativo categórico) ao invés do PRAZER (imperativo hipotético).
Adriana Gomes, em “Cosequências de uma sociedade Hedonista e Narcisista”, diz que, os sintomas de uma sociedade hedonista são:
- as pessoas desejam ser mais compreendidas e se dispõem a compreenderem menos;
- querem ser ouvidas e ouvem cada vez menos;
- querem praias limpas mas as deixam como chiqueiros após um final de semana no litoral;
- querem ser respeitadas e respeitam cada vez menos.
- e uma nova que recebi por email: Antigamente os pais pegavam os boletins com notas ruins de seus filhos e OS interrogavam: “O que é isso?? Exijo explicação!!!!”. Hoje os pais pegam os boletins com notas ruins de seus filhos e interrogam OS PROFESSORES: “O que é isso?? Exijo explicação!!!!”. (grifo meu)
Hedonismo, segundo o dicionário Houaiss é: “doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, mesmo sem justificar os meios para abtê-las.”
PERCEBAM O PERIGO.
O desrespeito e a falta de consideração ao próximo, se dão de muitas formas. Até mesmo nas salas de aula, os alunos fazem o que bem entendem e agem de acordo com o que lhe dá prazer naquele momento, sem levar em consideração premissas mínimas de convivência. Justificam-se, muitas vezes perante os professores, dizendo: “...eu que pago o seu salário”.
Eu sei que educar dá trabalho e nos exige muito. É um sacrifício. Exige antes de qualquer coisa que nos comportemos como modelos a serem seguidos.
Ficam vários questionamentos e uma missão para nós. Segue uma sugestão;
Mas o que poderíamos fazer para construir uma sociedade mais pacífica? Sem dúvida deixar o individualismo de lado e pensar coletivamente sobre a raiz do problema. A sugestão é tão óbvia e prolixa, que todos sabem, mas nunca concretizaram, pois, até hoje, o individualismo e a ânsia hedonista predominaram em nossa sociedade. A solução é a educação, sempre foi, e sempre será. A cultura é a única maneira de “domar” o homem selvagem. (RODRIGO).
Penso que o IDEAL é que façamos o DEVER com PRAZER.
Faço destas minhas considerações e fico aguardando um retorno da escola.
Atenciosamente e muito grato,
Fabiano Loureiro
Pai