Vitruviano

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Posso ser seu amigo???



Há pouco escutei de um grande amigo, aqueles da mais tenra infância: “Larga o Orkut e entra no Face”, no que respondi: “ORKUT já da um trabalho ”danado”, raramente o uso e não tenho condições de criar e gerir mais um perfil em sites de relacionamento.” No que replicou: “Você ta afastado... Entra no mundo!!” Foi a partir daí que o dialogo se aproxima da filosofia a qual repouso em seu leito como seu mais fiel amante. Inquietou-me...

“O convite foi para entrar em qual mundo?? Afastado de que??”

De fato vivemos em um mundo onde as pessoas, cada vez mais, se apresentam de forma carente, exibindo relacionamentos supérfluos e com grande necessidade de exposição.

No que tange à carência, este sentimento se apresenta de forma clara, mas ao mesmo tempo mascarado com uma grande sutileza. E a carência é tão carente que ela sempre se mostra acompanhada e de mão dada com sua super irmã “exposição”.

É preciso que a pessoa seja notada mesmo que através do TWITTER com frases do tipo: “Oi pessoal, acabei de acordar e estou escovando os dentes”- ... que informação mais desnecessária...Sim desnecessária, mas ainda assim existem outras que além de totalmente descartáveis são deselegantes. Imaginem: “Oi pessoal, acabei de acordar e estou fazendo meu exercício intestinal”. Certeza que não me surpreenderia com frases desse tipo.

Cresci ouvindo e aprendi com a experiência que amigos nós temos pouquíssimos. Sim, mas de repente minha afirmação pode parecer estranha aos ouvidos dos mais tecnológicos, uma vez que para se ter um amigo hoje basta enviar um convite de alcunha “add” e clicar em aceitar. São bons amigos para esse mundo. Volta a pergunta inicial... Que mundo???? Respondo que são bons amigos para um mundo onde as pessoas perderam a habilidade de se relacionar e na maior parte só a fazem virtualmente.

Reflitam AMIGOS em uma situação hipotética: Imaginem que ao andar no centro de Belo Horizonte, te aborde uma pessoa e te pergunta: “Posso ser seu amigo??”. Estranho né... Se você é uma mulher e fosse um homem a te abordar provavelmente você pensaria que se trata de uma cantada, ou que daí vem um convite para participar de um filme pornográfico. Isso se o homem for do tipo atraente e isso se você for uma mulher bonita e tiver um “corpão” , pois nesse mundo também imperam padrões estereotipados de beleza. Se você for uma mulher e te aborda um homem, nem tão atraente que o do exemplo anterior, provavelmente você acharia que se trata de um assalto. Se você ainda é uma mulher e te aborda uma outra, teria espaço na sua imaginação, que poderia tratar-se de um seqüestro e que você deveria se livrar daquela situação o mais rápido possível para não acordar, depois de três dias, dentro de uma banheira cheia de gelo e sem um rim ou uma córnea. Ahhhh, mas rins e córneas nós temos aos pares , não é? Qual o problema de perder um?

No exemplo anterior e se você é um homem e te aborda outro homem logo se pode imaginar que se trata de um homossexual carente em busca de prazeres desse mundo e se é uma mulher que te aborda logo você pode pensar que é alguém te oferecendo prazeres desse mundo em troca de dinheiro. Mas não estranhamos quando um “estranho” nos convida para ser amigo no FACE (e assim que se fala, não é?)e tão prontamente aceitamos o convite.

Acho que esse mundo é o mundo da desconfiança... dos relacionamentos virtuais. Se juntar com a carência, com o supérfluo e com a super exposição, começo a responder a primeira questão.

Finalizando gostaria de colocar meu ponto de vista que o problema não é a internet, mas sim o uso que se faz dela. O problema não são os sites de relacionamento, mas eles contribuem para que nos comportemos cada vez mais de forma esquizofrênica.

Então meus amigos não me entendam mal e não pensem que tenho más intenções quando lhes perguntar pessoalmente “se posso te seguir”.

Você já pensou no quão estranha é a sua vida "REAL"?



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Comportamentalizando a Percepção

"Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.



Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."
Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:
Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.
Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"
Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações".



Começo esse texto com um trecho do livro O Pequeno Principe que mostra como o infante viajante das estrelas se frustrou diante da percepção das pessoas grandes.

O que justifica tal começo é justamente porque o que quero falar é sobre a percepção,

Para o entendimento, duas coisas se fazem necessarias:
1º- Aceitar o pressuposto que pessoas tem percepções diferentes e;
2º- Que percepção é um comportamento como qualquer outro e não uma entidade mística e esoterica da qual só os grandes iniciados poderiam fazer bom uso dessa faculdade.


Diante da concordância dos dois enunciados ficará mais fácil para o leitor aceitar os pontos de vista aqui expostos. Mas ainda assim, para que a leitura seja confortável logo de início tentarei aprofundar mais sobre os dois enunciados propostos.

Partindo do entendimento da análise do comportamento e evitando intelectualizar ou teorizar muito o discurso para evitar assim que a compreensão se torne uma capacidade dos especialistas, sintetizarei o conceito de comportamento como - a relação que as pessoas estabelecem com o meio ambiente. Assim sendo, se percebemos algo é porque sem dúvida alguma, algo no meio ambiente tornou o comportamento de perceber importante naquele momento.

Mas porque as pessoas percebem de forma diferente mesmo que muitas das vezes vivem "nos mesmos ambientes" .

Podemos dizer que existem três formas de seleção e variação que ifluenciam no modo como as pessoas se comportam.

Um primeiro aspecto é a FILOGÊNESE. Nesse tipo de análise estamos tratando da história das espécies, na qual genes mais funcionais e adaptativos foram selecionados e trasnmitidos aos descendentes. Para aqueles que tiveram contato com as aulas de ciência do ensino médio, recordarão o exemplo dado de porque as girafas, que antes tinham pescoços curtos, hoje tem pescoços longos.





Com o passar do tempo e de forma paulatina os alimentos no solo foram diminuindo enquanto a população de girafas crescia. Diante disso fazia-se necessário que a natureza "fizesse suas artimanhas" para que a espécie não se extinguisse da face da terra. O que segue é que as girafas com os pecoços maiores podiam alcançar alimentos em locais onde seria impossível para aquela de pescoços menores. As que sobreviviam, por serem mais funcionais e adaptadas (repito esses dois termos propositalmente) transmitiam seus genes aos seus filhotes e assim sob o julgo de Cronos a população de girafas foi aumentando os pescoços.





Fica claro que ocorreu uma seleção genética. Filogeneticamente também, foram selecionados algumas característica nos seres humanos tais como, formato dos dentes, posição dos olhos em relação ao corpo, o Antropomorfismo - bipedismo, a complexidade neurobiológica, dentre outras. Toda essa evolução influência em muito como o ser humano percebe hoje em dia. A visão estereoscópica por exemplo, com as órbitas frontais permitem uma visão binocular, pelo menos em grande parte do campo de visão, o que favorece a percepção de profundidade e o cálculo de distâncias, para uma movimentação mais segura.

Muito melhor que esse que vos ecreve, pode tornar claro o entendimento Charles Darwim com sua teória de evolução das espécies.





O segundo aspecto é a ONTOGÊNESE que se refere à história particular dos indivíduos.
Pessoas apresentam uma infinidade de repertórios comportamentais diferentes, mesmo que convivam em um mesmo ambiente ou mesmo que tenham genes paracidos, como no caso de gêmeos univitelineos.
Uma criança que colocou o dedo em uma tomada e levou um choque elétrico terá uma experiência diferente diante de uma criança que aprendeu que colocar o dedo na tomada pode produzir um efeito aversivo doloroso. Provavelmente ambas não colocarão os dedos nas tomadas muito embora esse comportamento se instalou de maneiras diferentes.
Há pessoas que passam ao lado de um morador de rua em situação de grande vulnerabilidade social e pessoal e não o percebem, assim como existem outras que se horrorizariam com a situação. As pessoas tem percepções diferentes em função de sua história de vida, como ideológias, trabalhos desempenhados etc. Os Franciscanos, assim como certos funcionários públicos, prestam, mesmo que algumas vezes de forma diferente, assistência a tais moradores de rua. Assim sendo, é muito mais fácil uma pessoa com essas características perceberem a fragilidade que o desabrigado se encontra. Ainda assim as percepções podem ser diferentes. Talvez um fiel percebe a situação desumana a que o indivíduo esta submetido. Agentes públicos com histórias de vida diferentes e formações diferentes, podem perceber nuances diferentes diante da mesma pessoa e no mesmo momento. Um psicologo poderia se atentar para o discurso do morador de rua e não perceber a fragilidade das unhas ou diferença no tom de pele da pessoa, facilmente percebida por um médico.
Se dois irmãos gêmeos univitelineos, ou seja. que tiveram transmitidos os mesmos gens e que muitas das vezes tiveram a mesma educação dos pais, forem expostos a contingências diferentes, responderão de forma particular e provavelmente terão escolhas e percepções diferentes. Novamente aqui vemos a relação do homem com o ambiente circundante.

A terceira análise a ser feita é em relação à cultura, onde práticas são selecionadas e ou eliminadas.

Nos dias atuais e levando em consideração o Brasil, pode-se facilmente, se colocarmos de forma atenta, perceber como a cultura altera certas práticas que outrora não nos atentavamos.


Há pouco fui a um apeça teatral com meu filho onde era representada a história da Chapeuzinho Vermelho. Algumas modificações fizeram-se necessárias para que a exibição se ajustasse a certas normas sociais hoje vigentes.

A chapeuzinho vermelho não levava doces para a vovózinha e sim frutas; o lobo mau não queria comer a vovó o que hoje nos soa como uma tragédia (imaginem um lobo se alimentando de uma idoso. Certamente notícia de capa de jornais em todo o país denunciando a negligência perante os idosos ) e sim as frutas que a nete transportava; e por último o comportamento do caçador de matar o lobo, tanto evacionado e aplaudido no clássico original, hoje já não é mais aceito.





De vinte anos até a atualidade,muitas coisas mudaram o que influenciou diretamente as práticas culturais hoje vigentes. Se questionarmos o autor da peça teatral infantil, não resta dúvida que o relato das modificações feitas se dá em função de hoje ser culturalmente aceito que os açucares e os doces trazem prejuízos a saúde e que uma alimentação balanceada, com uma dieta de frurtas por exemplo, pode ser muito benéfica. Uma maior atenção ao idoso, o que possibilitou a pouquissímo tempo a criação de um estatuto que resguarde os direitos dessas pessoas, tornou politicamente incorreto veicular uma história infantil onde um lobo queria comer uma mulher em idade avançada e a partir de campanhas e leis ambientais de proteção aos animais hoje não seria bem vinda a idéia de um caçador matando indiscriminadamente um animal.

Hoje também, existe uma nova versão da cantiga "Atirei o pau no gato", onde prevalesse o cuidado que devemos ter com os animais ao invés da violência da versão original.

Podemos perceber novamente como os comportamentos são selecionados a partir da interação ambiental.

Mulheres grávidas relatam que de uma hora para a outra começas a perceber grávidas onde vão e que tem a impressão que o número de grávidez aumetou muito. Se fizermos um censo de saúde pública fica claro que não foi o número de gravidas que aumentou e através da análise do comportamento podemos chegar a conclusão que foi a pessoa que em função das contingências, passou a atentar para certos eventos que antes não lhes eram significativos e os quais não tinham a atenção direcionada.

Dessa forma concluimos que o comportamento de perceber esta intimamente relacionado com a interação entre aquele que percebe e o seu meio ambiente.

Que a filogênese, através da seleção das espécies, proporcionou a transmissão de genes que afetam como hoje percebemos as coisas; que a ontogênese, através da seleção dos comportamentos fazem com que um indivíduo perceba determinada coisa e que outro vai perceber outras diferentes e que tal fato se dá em função da história de vida individual e que finalmente a cultura seleciona as práticas executadas pela sociedade.

Talvez se o pequeno princípe fizesse uma análise minuciosa da situação não ficaria tão indignado com a percepção das pessoas grandes. Talvez aquele que julgou a sua cobra com um elefante no venre como um chapéu fosse um chapeleiro. Talvez se mostrasse o mesmo desenho para um biológo ou um zootecnista ficaria impressionado e surpreso como é bela a percepção das pessoas grandes. Talvez...


Rio de Janeiro, 22 de julho de 2011- 04:03 am.