
Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."
Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:
Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.
Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"
Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações".
Começo esse texto com um trecho do livro O Pequeno Principe que mostra como o infante viajante das estrelas se frustrou diante da percepção das pessoas grandes.
O que justifica tal começo é justamente porque o que quero falar é sobre a percepção,
Para o entendimento, duas coisas se fazem necessarias:
1º- Aceitar o pressuposto que pessoas tem percepções diferentes e;
2º- Que percepção é um comportamento como qualquer outro e não uma entidade mística e esoterica da qual só os grandes iniciados poderiam fazer bom uso dessa faculdade.
Diante da concordância dos dois enunciados ficará mais fácil para o leitor aceitar os pontos de vista aqui expostos. Mas ainda assim, para que a leitura seja confortável logo de início tentarei aprofundar mais sobre os dois enunciados propostos.
Partindo do entendimento da análise do comportamento e evitando intelectualizar ou teorizar muito o discurso para evitar assim que a compreensão se torne uma capacidade dos especialistas, sintetizarei o conceito de comportamento como - a relação que as pessoas estabelecem com o meio ambiente. Assim sendo, se percebemos algo é porque sem dúvida alguma, algo no meio ambiente tornou o comportamento de perceber importante naquele momento.
Mas porque as pessoas percebem de forma diferente mesmo que muitas das vezes vivem "nos mesmos ambientes" .
Podemos dizer que existem três formas de seleção e variação que ifluenciam no modo como as pessoas se comportam.
Um primeiro aspecto é a FILOGÊNESE. Nesse tipo de análise estamos tratando da história das espécies, na qual genes mais funcionais e adaptativos foram selecionados e trasnmitidos aos descendentes. Para aqueles que tiveram contato com as aulas de ciência do ensino médio, recordarão o exemplo dado de porque as girafas, que antes tinham pescoços curtos, hoje tem pescoços longos.

Com o passar do tempo e de forma paulatina os alimentos no solo foram diminuindo enquanto a população de girafas crescia. Diante disso fazia-se necessário que a natureza "fizesse suas artimanhas" para que a espécie não se extinguisse da face da terra. O que segue é que as girafas com os pecoços maiores podiam alcançar alimentos em locais onde seria impossível para aquela de pescoços menores. As que sobreviviam, por serem mais funcionais e adaptadas (repito esses dois termos propositalmente) transmitiam seus genes aos seus filhotes e assim sob o julgo de Cronos a população de girafas foi aumentando os pescoços.

Fica claro que ocorreu uma seleção genética. Filogeneticamente também, foram selecionados algumas característica nos seres humanos tais como, formato dos dentes, posição dos olhos em relação ao corpo, o Antropomorfismo - bipedismo, a complexidade neurobiológica, dentre outras. Toda essa evolução influência em muito como o ser humano percebe hoje em dia. A visão estereoscópica por exemplo, com as órbitas frontais permitem uma visão binocular, pelo menos em grande parte do campo de visão, o que favorece a percepção de profundidade e o cálculo de distâncias, para uma movimentação mais segura.
Muito melhor que esse que vos ecreve, pode tornar claro o entendimento Charles Darwim com sua teória de evolução das espécies.

O segundo aspecto é a ONTOGÊNESE que se refere à história particular dos indivíduos.
Pessoas apresentam uma infinidade de repertórios comportamentais diferentes, mesmo que convivam em um mesmo ambiente ou mesmo que tenham genes paracidos, como no caso de gêmeos univitelineos.
Uma criança que colocou o dedo em uma tomada e levou um choque elétrico terá uma experiência diferente diante de uma criança que aprendeu que colocar o dedo na tomada pode produzir um efeito aversivo doloroso. Provavelmente ambas não colocarão os dedos nas tomadas muito embora esse comportamento se instalou de maneiras diferentes.
Há pessoas que passam ao lado de um morador de rua em situação de grande vulnerabilidade social e pessoal e não o percebem, assim como existem outras que se horrorizariam com a situação. As pessoas tem percepções diferentes em função de sua história de vida, como ideológias, trabalhos desempenhados etc. Os Franciscanos, assim como certos funcionários públicos, prestam, mesmo que algumas vezes de forma diferente, assistência a tais moradores de rua. Assim sendo, é muito mais fácil uma pessoa com essas características perceberem a fragilidade que o desabrigado se encontra. Ainda assim as percepções podem ser diferentes. Talvez um fiel percebe a situação desumana a que o indivíduo esta submetido. Agentes públicos com histórias de vida diferentes e formações diferentes, podem perceber nuances diferentes diante da mesma pessoa e no mesmo momento. Um psicologo poderia se atentar para o discurso do morador de rua e não perceber a fragilidade das unhas ou diferença no tom de pele da pessoa, facilmente percebida por um médico.
Se dois irmãos gêmeos univitelineos, ou seja. que tiveram transmitidos os mesmos gens e que muitas das vezes tiveram a mesma educação dos pais, forem expostos a contingências diferentes, responderão de forma particular e provavelmente terão escolhas e percepções diferentes. Novamente aqui vemos a relação do homem com o ambiente circundante.
A terceira análise a ser feita é em relação à cultura, onde práticas são selecionadas e ou eliminadas.
Nos dias atuais e levando em consideração o Brasil, pode-se facilmente, se colocarmos de forma atenta, perceber como a cultura altera certas práticas que outrora não nos atentavamos.
Há pouco fui a um apeça teatral com meu filho onde era representada a história da Chapeuzinho Vermelho. Algumas modificações fizeram-se necessárias para que a exibição se ajustasse a certas normas sociais hoje vigentes.
A chapeuzinho vermelho não levava doces para a vovózinha e sim frutas; o lobo mau não queria comer a vovó o que hoje nos soa como uma tragédia (imaginem um lobo se alimentando de uma idoso. Certamente notícia de capa de jornais em todo o país denunciando a negligência perante os idosos ) e sim as frutas que a nete transportava; e por último o comportamento do caçador de matar o lobo, tanto evacionado e aplaudido no clássico original, hoje já não é mais aceito.

De vinte anos até a atualidade,muitas coisas mudaram o que influenciou diretamente as práticas culturais hoje vigentes. Se questionarmos o autor da peça teatral infantil, não resta dúvida que o relato das modificações feitas se dá em função de hoje ser culturalmente aceito que os açucares e os doces trazem prejuízos a saúde e que uma alimentação balanceada, com uma dieta de frurtas por exemplo, pode ser muito benéfica. Uma maior atenção ao idoso, o que possibilitou a pouquissímo tempo a criação de um estatuto que resguarde os direitos dessas pessoas, tornou politicamente incorreto veicular uma história infantil onde um lobo queria comer uma mulher em idade avançada e a partir de campanhas e leis ambientais de proteção aos animais hoje não seria bem vinda a idéia de um caçador matando indiscriminadamente um animal.
Hoje também, existe uma nova versão da cantiga "Atirei o pau no gato", onde prevalesse o cuidado que devemos ter com os animais ao invés da violência da versão original.
Podemos perceber novamente como os comportamentos são selecionados a partir da interação ambiental.
Mulheres grávidas relatam que de uma hora para a outra começas a perceber grávidas onde vão e que tem a impressão que o número de grávidez aumetou muito. Se fizermos um censo de saúde pública fica claro que não foi o número de gravidas que aumentou e através da análise do comportamento podemos chegar a conclusão que foi a pessoa que em função das contingências, passou a atentar para certos eventos que antes não lhes eram significativos e os quais não tinham a atenção direcionada.
Dessa forma concluimos que o comportamento de perceber esta intimamente relacionado com a interação entre aquele que percebe e o seu meio ambiente.
Que a filogênese, através da seleção das espécies, proporcionou a transmissão de genes que afetam como hoje percebemos as coisas; que a ontogênese, através da seleção dos comportamentos fazem com que um indivíduo perceba determinada coisa e que outro vai perceber outras diferentes e que tal fato se dá em função da história de vida individual e que finalmente a cultura seleciona as práticas executadas pela sociedade.
Talvez se o pequeno princípe fizesse uma análise minuciosa da situação não ficaria tão indignado com a percepção das pessoas grandes. Talvez aquele que julgou a sua cobra com um elefante no venre como um chapéu fosse um chapeleiro. Talvez se mostrasse o mesmo desenho para um biológo ou um zootecnista ficaria impressionado e surpreso como é bela a percepção das pessoas grandes. Talvez...
Rio de Janeiro, 22 de julho de 2011- 04:03 am.
Muito bom o seu texto. Esta questão da cultura é muito interessante. Depois de uma lida em Roberto Damatta; a antropologia nos ajuda bem.
ResponderExcluirParabéns!
Oi fabiano, adorei! Como é bom ver que uma discussão que começou na sala de aula extrapola aquele momento e aquele ambiente, ganha novos ouvintes e vai ficando cada vez mais rica. Comportamento verbal, né?!!!
ResponderExcluirPoxa como sempre otimas postagens em primo! abraço grande e saudade!!
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