Vitruviano

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Prazer X Dever

Caros leitores:
Esse texto foi motivado a partir de uma situação real que vivi na escola do meu filho. Penso eu, que sua reflexão, é de fundamental importância, não só para pais e mães mas para todos que estão empenhados com uma sociedade mais justa e com a formação de nossos jovens.
Essa é uma adaptação do original enviado à coordenação da escola:


Caríssimas Professoras,

Mantendo a atitude de constantemente estar próximo da educação e formação do meu filho e exercendo eu próprio a tarefa de formador e educador, venho por meio desse texto tecer algumas considerações que no momento se fazem pertinentes.

Fico bastante satisfeito com a evolução do C., fato esse que atesta um bom trabalho da escola.

Há tempo gostaria de fazer essas reflexões, mas como outras questões urgem em nosso cotidiano, só agora tive como sistematizar minhas idéias.

Percebi com “muita” preocupação, uma estratégia da escola em trocar o DEVER de casa por PRAZER de casa.

Não tenho dúvida nenhuma que o objetivo era minimizar, para as crianças, a carga de trabalho que vem junto ao termo “dever de casa” e que isso foi feito com as melhores intenções pela equipe da escola. Se fosse diferente e percebesse que esse local de promoção da educação não estivesse somando virtudes e boas condutas para meu filho, é certo que não permitiria a sua permanência nessa local.

Mas, mesmo diante da boa intenção, me preocupa como essa mensagem será recebida pelos educandos bem como para seus responsáveis.

Vivemos hoje, em um mundo, onde os valores vem há muito tempo se degenerando, prevalecendo assim a futilidade, o banal, a promiscuidade e o imoral.

Atualmente o que se observa na nossa cultura é uma perda do senso crítico. Estamos diante de uma crise dos valores onde perdemos a noção de limite entre o bom e o mal. São esses conceitos aprendidos que regem o nosso comportamento a nível social. Até onde se busca a satisfação imediata do desejo, pela primazia do princípio do PRAZER absoluto, ou se busca ver o que realidade objetiva oferece pela primazia do princípio da realidade. (LEVINSKI)


Pouco se fala nesse mundo sobre valores e virtudes, e a audiência prefere assuntos que não exijam qualquer movimentação (ação de se movimentar) ou sacrifícios, ficando assim uma sociedade acomodada, letárgica.

A barbárie com que convivemos é sintoma de uma sociedade decadente e doente. A ética, os valores e a dignidade humana deixaram de existir em nossa sociedade, a paranóia, o pânico social, a depressão e a frustração são doenças, hoje em dia, corriqueiras que acometem a maioria da população. Nestes termos, há muito mais motivação em ir ao shopping saboreamos com os últimos lançamentos, a que refletir e nos mobilizarmos de maneira pragmática diante da violência e do que nos aflige. (RODRIGO F.C.)


A própria palavra sacrifício perdeu o seu sentido real e literário (sagrado-ofício) e apresenta-se hoje como algo danoso e que deve ser evitado.

Mas é importante lembrarmos que esse mesmo mundo que faz com que as pessoas “amoleçam” e engordem em seus sofás, ele também cobra, seleciona, exclui e é muito exigente. Existem obrigações, DEVERES, e se não cumpridas somos responsabilizados na forma da lei e é importantíssimo que isso seja apresentado para nossas crianças o quanto antes, pois, estão em uma fase de aprendizado e desenvolvimento. Li há pouco, uma frase que acho que faz muito sentido e vai um pouco na contramão do que é dito corriqueiramente: “Não precisamos de um mundo melhor para nossas crianças, precisamos de crianças melhores para nosso mundo”.

A legislação específica para esse público, Estatuto da Criança e do Adolescente, apresenta, além dos Direitos, os Deveres das crianças e adolescentes.

O Brasil é hoje um país de jovens e segundo Levinsky, esses jovens encontram muitas dificuldades de adaptação à vida moderna. (Adolescencia e violência- Consequencias da Realidade Brasileira).

Devido a primazia do PRAZER imediato para eles não há preocupação de contribuir para a evolução da sociedade. Não conseguem passar do estágio egocentrico, narcísico, em que o importante é existir, sobreviver a qualquer preço. (LEVINSKI)



Para o mundo atual, (individualista, sectário, egoísta) o PRAZER tem primazia sobre o DEVER. “Oxála que nossas crianças não reproduzam essa atitude”.

Estamos vivêndo em um mundo que é preferível Ter do que Ser.

“PRAZER sobre DEVER”!!. Esse axioma é perigosíssimo e se apresenta disfarçado como algo bom. O maior feito do “Diabo” foi fazer com que as pessoas não acreditassem nele. Uso essa frase metaforicamente e sem nenhuma conotação religiosa.

O DEVER, sempre deve vir antes do PRAZER. Particularmente, não gosto de palavras absolutas como Tudo, Nada, Sempre e Nunca, mas nesse caso a palavra SEMPRE tem que ser empregada. Não tenho objetivo de fazer propaganda negativa do Prazer, mas esse tem o seu lugar e SEMPRE depois dos nossos deveres.

No século XVIII, um filósofo alemão e que se faz atualíssimo, Emanuel Kant, falava que os instintos não devem governar os homens, pois estes os levam somente a satisfação de suas necessidades. Os instintos estão para os animais como a razão esta para os seres humanos.

Kant diz ainda que a única coisa, inteiramente boa, é a boa vontade e que a característica dessa é a ação pelo DEVER e não por inclinações.

Postula sobre o imperativo categórico, um imperativo da moral, que ordena que só devemos agir conforme uma máxima que se torne universal, ou seja, que possa valer para todos os homens, independente de suas aspirações pessoais. Isso por si só, já é uma aproximação ao altruísmo em detrimento do egoísmo.

O filosofo diz ainda que devemos agir pelo DEVER (imperativo categórico) ao invés do PRAZER (imperativo hipotético).

Adriana Gomes, em “Cosequências de uma sociedade Hedonista e Narcisista”, diz que, os sintomas de uma sociedade hedonista são:
- as pessoas desejam ser mais compreendidas e se dispõem a compreenderem menos;
- querem ser ouvidas e ouvem cada vez menos;
- querem praias limpas mas as deixam como chiqueiros após um final de semana no litoral;
- querem ser respeitadas e respeitam cada vez menos.
- e uma nova que recebi por email: Antigamente os pais pegavam os boletins com notas ruins de seus filhos e OS interrogavam: “O que é isso?? Exijo explicação!!!!”. Hoje os pais pegam os boletins com notas ruins de seus filhos e interrogam OS PROFESSORES: “O que é isso?? Exijo explicação!!!!”. (grifo meu)

Hedonismo, segundo o dicionário Houaiss é: “doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, mesmo sem justificar os meios para abtê-las.”

PERCEBAM O PERIGO.

O desrespeito e a falta de consideração ao próximo, se dão de muitas formas. Até mesmo nas salas de aula, os alunos fazem o que bem entendem e agem de acordo com o que lhe dá prazer naquele momento, sem levar em consideração premissas mínimas de convivência. Justificam-se, muitas vezes perante os professores, dizendo: “...eu que pago o seu salário”.

Eu sei que educar dá trabalho e nos exige muito. É um sacrifício. Exige antes de qualquer coisa que nos comportemos como modelos a serem seguidos.
Ficam vários questionamentos e uma missão para nós. Segue uma sugestão;

Mas o que poderíamos fazer para construir uma sociedade mais pacífica? Sem dúvida deixar o individualismo de lado e pensar coletivamente sobre a raiz do problema. A sugestão é tão óbvia e prolixa, que todos sabem, mas nunca concretizaram, pois, até hoje, o individualismo e a ânsia hedonista predominaram em nossa sociedade. A solução é a educação, sempre foi, e sempre será. A cultura é a única maneira de “domar” o homem selvagem. (RODRIGO).


Penso que o IDEAL é que façamos o DEVER com PRAZER.

Faço destas minhas considerações e fico aguardando um retorno da escola.



Atenciosamente e muito grato,


Fabiano Loureiro
Pai

10 comentários:

  1. Arrisco dizer que essa questão encabeça a lista dos nossos vicios contemporâneos. Well done, Loureiro.
    A proposito, teve alguma resposta da escola?

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  2. Sim. O texto foi recebido pela escola e eles me aguardavam para uma conversa pessoalmente. Em função da rotina semanal ainda não tive esse tempo, mas na minha opinião o texto é auto explicativo.
    Obrigado pelo comentário.

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  3. Olá,

    Sobre o texto: Considerações muito apropriadas, das quais partilho em genero, número e grau, no exercício das minhas atribuições como mãe, professora/educadora e advogada, e principalmente, como individuo que considera estar na educação e na disciplina a chave para a "construção" de seres humanos melhores.

    Danusa Nogueira

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  4. Bacanudo por demais, Mumu!
    Arrasou na "intiligência pofrunda" como sempre!
    Massa o blog, massa...
    Flores!
    Patuá

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  5. Fabiano,
    Como alguém aí já disse "muito pertinente" essa sua atitude frente a esta "inovação" escolar. Isso corrobora com minha postura diária enquanto mãe, primeira educadora de minhas crianças e enquanto ser pensante. É gratificante saber q ñ estamos sós. "Se perguntarem quantos somos, responderemos: - SOMOS UM"!
    Forte abraço
    Catarina

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  6. Fabiano,
    No seu texto você utiliza algumas palavras que são conceitos não só para filosofia como para outras ciências. Sendo assim, o que você quis dizer por bondade, altruísmo? Ademais é preciso contextualiza que Kant escreveu no modernismo, era da razão, é preciso ficar claro o que ele entendia por bondade. Altruísmo não é um conceito trabalhado por ele, não que me lembre.
    E voltando ao antigo debate: a partir de qual leitura você usou o termo valor? Valores se degeneram? ou modificam? Da mesma forma o que era o bem na idade antiga não necessariamente o era na idade média e assim por diante.
    O mundo sempre engordou e amoleceu as pessoas, o que muda é o local (hj é o sofá) e o grupo de pessoas que são amolecidas.
    Concordo quando diz que a falta de respeito e a consideração ao próximo se dão de muitas maneira. Elas acontecem quando preciso de um documento em um órgão público e um amigo que trabalha no local pega para mim, evitando assim que eu fique na fila. E quando combino com alguém algo e não cumpro porque é melhor para mim e desconsidero o compromisso que assumi com a pessoa. Exemplos temos aos montes. A grande questão é minha participação nessa balburdia toda, o que faço concretamente para mudar a tão falada crise de valores.
    Suely

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  7. "São esses conceitos aprendidos que regem o nosso comportamento a nível social."
    "A nível social"...isso dói..

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  8. Consderações a partir do comentário da Suely


    O texto não tem a intenção de ser um tratado cientifico com todo o seu rigor e sim um instrumento para reflexão e discussão, fato esse que não me impossibilitou em publicá-lo mesmo perdendo as suas referências bibliográficas.
    Importante ressaltar que se trata de PONTOS DE VISTA e é exatamente o estudo comparativo que pode enriquecer nossas discussões.

    A palavra bondade foi usada bem próximo como é empregada no senso comum. Pode surgir o questionamento de o que é bom para um não necessariamente o é para o outro, mas trabalhamos então no texto, com a essência do conceito de bondade, aquilo que, segundo o dicionário Priberam, é a: “disposição natural que nos leva a fazer bem e nunca mal. Qualidade do que é bom. Boa índole. Brandura, benevolência.”; e penso também que qualquer entendimento da palavra, parecido com esse, não causará problemas na interpretação do texto.
    Em relação ao altruísmo, prefiro manter a simplicidade no discurso e dizer que no texto significa tudo aquilo que se opõem ao egoísmo.

    No que tange ao entendimento de Kant sobre a bondade, penso que a relação que fiz do filosofo com a palavra foi quando o cito versando que a única coisa inteiramente boa é a BOA VONTADE, que como dita o texto, trata-se da ação sem inclinações egoicas, e que em meu entendimento, quiçá, iluminada pela “razão”. Entendo também, que o filósofo trata do altruísmo no momento em que afirma que “agir conforme uma máxima que se torne universal, ou seja, que possa valer para todos os homens, independente de suas aspirações pessoais”. Ressalto, porém, que concordo, que é uma ótima pesquisa a relação Kant/ Bondade/ Altruísmo para aqueles que se inspirem por tal assunto.

    Realmente cabe o adjetivo “antigo” ao debate, uma vez que não “é de hoje” essa nossa discussão. Cabe novamente ressaltar que as idéias expostas são a partir de pontos de vistas pessoais. Adiantando um próximo texto que tenho intenção de publicar (que inclusive você o conhece bem) venho dizer que é possível que valores e que a própria moral se degenerem. Importante para esse entendimento a reflexão sobre uma moral e valores atemporais, o que deixo aqui como link para a próxima postagem.

    Concordo também que a Humanidade sempre passou por crises, cambiando muitas vezes, somente o cenário e os personagens.

    Acredito que tal fato se dá em função da Lei dos Ciclos, onde o Universo, e todas as suas manifestações no Micro e no Macro (pois ambos apresentam um padrão semelhante) se comportam de forma circular, como uma roda. Esse ponto de vista diz que TUDO tem seu período de Manifestação e Repouso, ou como comumente conhecidos, Manvântara e Pralaya. Seguindo o raciocínio, penso que atualmente estamos vivendo uma “nova idade média”, prevalecendo, como antes, a escuridão, a ignorância e a barbárie, onde o conhecimento da Antigüidade é escondido não se levando em consideração as tradições.
    Sinto-me a vontade em dizer que estamos em um período de Kali Yuga, imperando o foco da mente nos elementos mais densos e materiais da realidade. Novamente recomendo àqueles interessados no assunto que façam suas pesquisas e teçam suas considerações acerca de tal temática.

    Realmente, importante a sua menção, que a falta e respeito acontece muitas vezes de forma muito sutil e velada. Insuficiente aqui o espaço, se tivermos a intenção de elencar tais exemplos.

    A sua última questão, também se torna a minha em várias situações, onde me pego perguntando, o que fazer para mudarmos a realidade em que vivemos. O que sei é que nada sei, mas paradoxalmente SEI que informação sem ação é tão “histéril como semente plantada em solo infértil”.

    Muito Grato

    Fabiano Loureiro

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  9. Mumu! Acabo de "descobrir" seu blog. Muito legal a iniciativa! Ganhou um leitor!

    Grande abraço!

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  10. Muito bacana o seu texto e vem ao encontro de minhas reflexões ...Nos que somos mães e continuadoras ,ou modificadoras , de nossa cultura precisamos nos atentar sobre a atual condição do ser humano e para onde estamos indo... Fundamental percebermos que em poucas palavras por vezes estamos perpetuando conceitos formulados a partir da falta completa de compromisso, da preguiça que parece que assola nosso mundo . Talvez lendo esse texto meus filhos entendam a minha implicancia com o controle remoto , com alguns programas de televisão, algumas varias propagandas ... vou recomendar enfaticamente esse blog para eles.
    "O que me preocupa não é o grito dos maus , mas o silêncio dos bons." Martin Luther King

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